ENTREVISTA COM O VICE-PRESIDENTE JOSÉ ALENCAR

quarta-feira, dezembro 23, 2009 / /

Em entrevista ao jornal O Tempo de hoje, o vice-presidente José Alencar fala de juros, de política, da luta para cura de seu cancer e da possibilidade de se candidatar em 2010 ao Senado Federal. 

"Se Deus me curar, tenho até o dever de me candidatar"
José Alencar Vice-presidente da República

João Pombo Barile
Animado com a melhora no tratamento do câncer, Alencar quer continuar na política, como senador, e convoca os mineiros à vanguarda. "Minas precisa voltar a assumir responsabilidades maiores na República", afirma em entrevista exclusiva para O TEMPO.
O senhor sempre criticou as taxas de juros no Brasil. Hoje elas são menores do que quando o presidente Lula assumiu. O senhor se considera um vitorioso? Elas hoje são menores, mas ainda são muito altas. Eu sempre bati contra isso por várias razões: uma delas é que a rubrica mais pesada do orçamento é a rubrica relativa aos juros com que nós rolamos nossa dívida. Ela é um despropósito. Eu me refiro à taxa básica - a Selic, que hoje está em 8,75%. Ela chegou já a 25%, a 19% e por aí. Nós vamos gastar, nestes oito anos, quase R$ 1,2 trilhão. É uma fábula. Se nós tivéssemos adotado uma taxa nominal, metade da que adotamos, nós teríamos economizado R$ 600 bilhões.
É um instrumento de política monetária errado, não? Claro. O Brasil ainda é um país de subconsumo. Há muitas pessoas, mais de 50% da população, que consomem apenas o essencial. Então você não pode achatar esse consumo. Não tem como achatar. Você não pode achatar o consumo de quem não consome. Então, a taxa é inócua para grande parte da população.
E por que o senhor acha que essas taxas não caem? Elas não caem porque a equipe técnica do Banco Central (BC) não acredita nisto que eu falo. Qualquer coisinha de corrida para compra, ela usa a taxa para inibir.
O senhor não acha que o que existe é uma pressão política para que as taxas não caiam? Veja bem: a equipe do BC é competente, do ponto de vista técnico, mas a decisão, na minha opinião, é política. E o presidente também não está errado. O presidente deve pensar - ele nunca falou isto comigo -, mas ele deve pensar: "O Zé Alencar não é economista, então, eu tenho que ouvir os profissionais. Se eu tenho uma dor de barriga, eu tenho que procurar é um médico e não um leigo. E o Zé Alencar é leigo".
Gostaria de conversar um pouco sobre a sua doença. Todo o país tem acompanhado sua luta. Como o senhor encara esse carinho? Sinceramente, foi construída uma corrente em meu favor que é uma coisa admirável. As orações têm valido muito. Eu estou passando por um momento que é um verdadeiro milagre. Os tumores estão definhando. Eles estão secando, estão morrendo. Os médicos ficam admirados, é uma surpresa. É uma coisa fantástica o que está acontecendo. Eu atribuo também ao trabalho médico, mas atribuo principalmente a uma vontade de Deus que quer me curar. E eu sempre falei: se Deus quiser me levar, ele não precisa de câncer para me levar. Agora, se ele não quiser que eu vá, não há câncer que me leve. Pois bem, é isto que está acontecendo. Nós estamos vencendo o câncer.
E o seu futuro político? O senhor pretende sair para o Senado? Eu posso me candidatar se estiver curado. Se Deus me curar, eu tenho até o dever de me candidatar. Eu preciso retribuir com um trabalho dedicado totalmente à vida pública, eu preciso retribuir este milagre. Porque é um milagre. Agora, se eu não estiver curado, eu não levarei meu nome como candidato porque não seria honesto. Eu só posso levar meu nome se eu estiver seguro de poder exercer o mandato.
Como está o seu tratamento? Eu comecei este tratamento, que eu ainda me submeto e vou continuar em São Paulo, em 1º de setembro. Quando foi dia 21 de outubro, portanto 50 dias depois, foi feito o primeiro exame e os tumores tinham reduzido 30%. Foi uma revolução no hospital. Mais outro período igual, e no dia 7 de dezembro, portanto 46 dias depois daquele primeiro exame, fizemos então novos exames de imagens. E demonstrou nova redução de mais 30% e nenhum nódulo novo. Agora, já tem duas semanas, já que o último exame foi no dia 7 de dezembro, e não vamos fazer exame agora. É muita irradiação. Vamos fazer exame lá pelo fim de janeiro. E pelos exames clínicos os médicos estão admirados. Já não encontram mais o tumor por exame clínico. Então a impressão que eu tenho é que os tumores já estão desaparecidos, se já não desapareceram. O quadro é um quadro de cura. E eu estou muito animado.
O que pensa da retirada da candidatura à Presidência da República do governador Aécio? Por enquanto, não é uma decisão final, peremptória. A política é muito dinâmica. Tudo está muito cedo. Tudo pode acontecer. O que eu posso dizer para você é que Minas é um Estado que precisa voltar a assumir responsabilidades maiores na República. O Brasil está com saudades de Minas e isso você não tenha a menor dúvida. E eu também não tenho dúvida de que haverá Minas disputando as eleições para a Presidência da República em 2010. Agora, é claro que poderá acontecer, e isso é uma decisão do PSDB que eu respeito, mas que não é o meu partido, um acordo que Lula chama dos "dois Tostões". O presidente não acredita na chapa Serra e Aécio.

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