Muito bom este artigo do Marcelo de Brot, onde ele analisa a repercussão da entrevista do presidente Lula na Folha de São Paulo de ontem. O presidente deu uma declaração metafórica dizendo que, "para governar o Brasil até Jesus teria que se aliar a Judas".
O jornalista traduz para os leitores, a declaração do presidente de uma maneira madura e inteligente.
Leiam abaixo o artigo e a entrevista do presidente.
Carlos Lindenberg
Uma política de resultados apenas
MARCEL DE BROT*
Repercutiu bastante, como era de se esperar, a entrevista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao jornal Folha de S. Paulo, em que ele disse que, para governar, até Jesus teria que se aliar a Judas, se ele tivesse votos. A oposição logo abriu fogo em cima da declaração, também como era de se esperar, mas, no fundo, todos os atores desse embate sempre fizeram o mesmo em busca do poder.
Na política brasileira, desde os tempos de Getúlio Vargas até Fernando Henrique Cardoso, o antecessor de Lula, os acordos e alianças, mesmo espúrios ou inimagináveis do ponto de vista ideológico, sempre marcaram a vida nacional. O balcão de negócios sempre esteve aberto entre o Executivo e o Legislativo. Nisso, o presidente Lula não fugiu da verdade. E aqueles que não agiram assim - curiosamente, dois deles não de grata memória - caíram da poltrona presidencial. Foram Jânio Quadros e Fernando Collor de Mello.
Na década de 80, Tancredo Neves chamou José Sarney para um projeto de Governo. Depois, Fernando Henrique deu as mãos a Antonio Carlos Magalhães. E Lula, recentemente, defendeu ardorosamente o mesmo José Sarney e tem, entre seus aliados, os grandes inimigos ou adversários da época em que o Partido dos Trabalhadores era oposição e ele não media palavras para "espinafrar" esses atuais aliados.
O que difere Lula de FH nesse aspecto é apenas a retórica, dos tucanos, mais elaborada e bem construída do ponto de vista da língua pátria, e de Lula, mais simplista e com metáforas típicas do ex-metalúrgico nascido pobre e que não teve como frequentar a universidade.
Mas ambos, o tucano e o petista, são iguais quando se trata da flexibilização de ideias e discursos em busca de uma governabilidade, que, se não é lá essas coisas do ponto de vista ético, traduz o objetivo de continuar no poder.
Desses dois partidos se esperou alguma mudança na política nacional. Quando FH foi candidato, muita gente imaginou um país diferente, com reforma política, reforma tributária, reforma agrária, entre outras reformas necessárias à sociedade brasileira. Ele se elegeu com apoio da maioria dos eleitores, mas negou fogo nas mudanças prometidas. E se reelegeu numa aliança questionada pelos que se sentiram enganados com o seu discurso inicial, mas de novo teve resultados práticos, única coisa de que realmente não abriu mão para continuar no Palácio do Planalto.
Ao final de seu Governo, FH perdeu esse apoio da maioria e foi a vez do "sapo barbudo" virar o "Lula paz e amor". Lula chegou ao poder com a mesma promessa de mudar a política nacional, no que todos acreditaram, afinal, era um representante realmente popular e tinha tudo para cumprir o seu discurso. Ganhou e, ao contrário de FH, se reelegeu por conta própria, tendo contra si inclusive parte da grande Imprensa nacional. Foi uma vitória inquestionável e uma lição para a elite brasileira, acostumada a mandar no jogo das campanhas eleitorais. Não foi portanto como foi com Collor e como foi com FH. Não satisfez a elite. Mas Lula gostou demais do sabor do poder e logo aderiu ao que ele comparou em sua entrevista com aliança entre Jesus e Judas.
Por mais que seja mesmo assim, um grande jogo de interesses e de forças da política, Lula talvez tenha sido o único, até hoje, que chegou ao poder identificado com a grande massa na planície brasileira. Fez até mesmo uma mudança lá embaixo com suas políticas compensatórias. Todos têm que admitir que ele melhorou a situação das camadas menos favorecidas do país. Mas suas alianças de resultados fazem arrepiar aquele purista que imagina, do discurso, um caminho para a realização do compromisso assumido. Já o DEM, tem dificuldade no discurso se quem ouve tem memória sobre os tempos obscuros da ditadura militar. E eles têm muita dificuldade em fazer oposição nesse momento. Para o PMDB, partido com capilaridade em todo o país, negociar é suficiente.
(*) Marcel De Brot é chefe de redação e editor de caderno na sucursal de Brasília
Repercutiu bastante, como era de se esperar, a entrevista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao jornal Folha de S. Paulo, em que ele disse que, para governar, até Jesus teria que se aliar a Judas, se ele tivesse votos. A oposição logo abriu fogo em cima da declaração, também como era de se esperar, mas, no fundo, todos os atores desse embate sempre fizeram o mesmo em busca do poder.
Na política brasileira, desde os tempos de Getúlio Vargas até Fernando Henrique Cardoso, o antecessor de Lula, os acordos e alianças, mesmo espúrios ou inimagináveis do ponto de vista ideológico, sempre marcaram a vida nacional. O balcão de negócios sempre esteve aberto entre o Executivo e o Legislativo. Nisso, o presidente Lula não fugiu da verdade. E aqueles que não agiram assim - curiosamente, dois deles não de grata memória - caíram da poltrona presidencial. Foram Jânio Quadros e Fernando Collor de Mello.
Na década de 80, Tancredo Neves chamou José Sarney para um projeto de Governo. Depois, Fernando Henrique deu as mãos a Antonio Carlos Magalhães. E Lula, recentemente, defendeu ardorosamente o mesmo José Sarney e tem, entre seus aliados, os grandes inimigos ou adversários da época em que o Partido dos Trabalhadores era oposição e ele não media palavras para "espinafrar" esses atuais aliados.
O que difere Lula de FH nesse aspecto é apenas a retórica, dos tucanos, mais elaborada e bem construída do ponto de vista da língua pátria, e de Lula, mais simplista e com metáforas típicas do ex-metalúrgico nascido pobre e que não teve como frequentar a universidade.
Mas ambos, o tucano e o petista, são iguais quando se trata da flexibilização de ideias e discursos em busca de uma governabilidade, que, se não é lá essas coisas do ponto de vista ético, traduz o objetivo de continuar no poder.
Desses dois partidos se esperou alguma mudança na política nacional. Quando FH foi candidato, muita gente imaginou um país diferente, com reforma política, reforma tributária, reforma agrária, entre outras reformas necessárias à sociedade brasileira. Ele se elegeu com apoio da maioria dos eleitores, mas negou fogo nas mudanças prometidas. E se reelegeu numa aliança questionada pelos que se sentiram enganados com o seu discurso inicial, mas de novo teve resultados práticos, única coisa de que realmente não abriu mão para continuar no Palácio do Planalto.
Ao final de seu Governo, FH perdeu esse apoio da maioria e foi a vez do "sapo barbudo" virar o "Lula paz e amor". Lula chegou ao poder com a mesma promessa de mudar a política nacional, no que todos acreditaram, afinal, era um representante realmente popular e tinha tudo para cumprir o seu discurso. Ganhou e, ao contrário de FH, se reelegeu por conta própria, tendo contra si inclusive parte da grande Imprensa nacional. Foi uma vitória inquestionável e uma lição para a elite brasileira, acostumada a mandar no jogo das campanhas eleitorais. Não foi portanto como foi com Collor e como foi com FH. Não satisfez a elite. Mas Lula gostou demais do sabor do poder e logo aderiu ao que ele comparou em sua entrevista com aliança entre Jesus e Judas.
Por mais que seja mesmo assim, um grande jogo de interesses e de forças da política, Lula talvez tenha sido o único, até hoje, que chegou ao poder identificado com a grande massa na planície brasileira. Fez até mesmo uma mudança lá embaixo com suas políticas compensatórias. Todos têm que admitir que ele melhorou a situação das camadas menos favorecidas do país. Mas suas alianças de resultados fazem arrepiar aquele purista que imagina, do discurso, um caminho para a realização do compromisso assumido. Já o DEM, tem dificuldade no discurso se quem ouve tem memória sobre os tempos obscuros da ditadura militar. E eles têm muita dificuldade em fazer oposição nesse momento. Para o PMDB, partido com capilaridade em todo o país, negociar é suficiente.
(*) Marcel De Brot é chefe de redação e editor de caderno na sucursal de Brasília
"No Brasil, Jesus teria que se aliar a Judas", diz Lula
| Alan Marques/Folha Imagem |
KENNEDY ALENCAR
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva diz que até "Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão" se fosse eleito para governar o Brasil. Na primeira entrevista à Folha após dois anos, declara que "a transferência de voto não é como passe de mágica". Diz, porém, que se empenhará em transferir o seu prestígio e o do governo para a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, sua candidata. Nega que a eleição dela fosse equivaler a um terceiro mandato. "A Dilma no governo tem de criar a cara dela. Rei morto, rei posto."
Lula afirma ser "debate pequeno" a declaração do presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Gilmar Mendes, de que faz comícios pró-Dilma em viagens pelo país. Novamente de dieta para emagrecer, diz que apoiou a manutenção no cargo do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), por "segurança institucional". Segundo Lula, a oposição ia "fazer um inferno neste país".
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA - Não estava em debate quem era PT mais puro-sangue, menos puro-sangue. Era questão de viabilidade política. Dilma é a mais competente gerente que o Estado já teve. A capacidade de trabalho, a competência, o passado político e o presente, isso me faz garantir que é excepcional candidata.
FOLHA - Esse argumento não é muito tucano? O sr. nunca havia sido gestor, virou presidente e faz um governo bem avaliado.
LULA - Não é tucano, não. Além de gestora, é extraordinário quadro político.
FOLHA - Já há faixas na rua dizendo que Dilma eleita equivale ao seu terceiro mandato.
LULA - Exatamente o contrário. Uma mulher que tem a personalidade que a Dilma tem vai exigir que eu tenha o bom senso de quando elegi o Jair Meneguelli presidente do sindicato de São Bernardo, o José Dirceu presidente do PT. Rei morto, rei posto. A Dilma no governo tem de criar a cara dela, o estilo dela, o jeito dela de governar.
FOLHA - O sr. defende uma coalizão e uma disputa plebiscitária. Se a coalizão é importante, por que o candidato deve ser do PT e não de um partido aliado?
LULA - Porque seria inexplicável para grande parte da sociedade o maior partido de esquerda do país, que tem o presidente, não ter um sucessor.
FOLHA - Fechou ontem [anteontem] a aliança com o PMDB?
LULA - Haverá acordo nacional, e a chapa PT-PMDB.
FOLHA - Michel Temer é o nome para vice?
LULA - Quem discute vice é o candidato.
FOLHA - Se Ciro seguir emparelhado ou à frente de Dilma em março, quando o sr. e ele combinaram de decidir, que argumento o sr. pode usar para convencê-lo a desistir da Presidência e concorrer em SP?
LULA - Jamais farei isso.
FOLHA - O sr. patrocina a articulação para ele ser candidato em SP.
LULA - Não é verdade. Sou o único que não tem autoridade moral para pedir para alguém não ser candidato. Fui candidato a vida inteira. Só cheguei à Presidência porque teimei.
FOLHA - Como o sr. explica um governo popular e a oposição líder nas pesquisas da sucessão?
LULA - Ainda não temos candidatos.
FOLHA - Os motivos? Recall?
LULA - Lógico que é recall. Um candidato da oposição, governador de São Paulo, já foi candidato a presidente, já foi senador, já foi ministro, tem uma cara muito conhecida no Brasil inteiro. A transferência de voto não é como passe de mágica.
Vamos trabalhar para que a gente possa transferir todo o prestígio do governo e do presidente para a nossa candidatura.
FOLHA - Todo dia a Dilma aparece com o sr. no noticiário, viajando. O presidente do Supremo Tribunal Federal classificou de vale-tudo as viagens que viram comícios.
LULA - Você passa o tempo inteiro plantando sua rocinha. É justo que, quando ficar no ponto de colher, você vá colher. Ninguém pode ser contra a Dilma ir às obras comigo. Se for candidata, a lei determina que tem prazo em que não poderá mais ir. Até lá, ela é governo.
FOLHA - Mendes diz que o governo testa o limite da Justiça.
LULA - É um debate pequeno. Cada brasileiro tem o direito de falar o que bem entender, mas vamos continuar inaugurando.
FOLHA - Teme chapa Serra-Aécio?
LULA - Não.
FOLHA - Pediu a Aécio para não ser vice de Serra?
LULA - [Riso] Não, não.
FOLHA - Por que não abandonou Sarney na crise do Senado?
LULA - Não entendi por que os mesmos que elegeram Sarney, um mês depois, queriam derrubá-lo. Coincidentemente, o vice não era uma pessoa [Marconi Perillo, do PSDB de Goiás] que a gente possa dizer que dá mais garantia ao Estado brasileiro do que o Sarney. A manutenção do Sarney era questão de segurança institucional.
FOLHA - Se Sarney caísse, acabaria a sustentação política do governo?
LULA - A queda do Sarney era o único espaço de poder que a oposição tinha. Iam fazer um inferno neste país.
FOLHA - O sr. disse que Sarney não poderia ser tratado como um cidadão comum. Não é incorreto numa democracia, onde ninguém está acima da lei? Um presidente falar isso não transmite mensagem ruim?
LULA - É verdade que ninguém está acima da lei, mas é importante não permitir a execração das pessoas por conveniências eminentemente políticas. Sarney foi presidente. Os ex-presidentes precisam ser respeitados, porque foram instituições. Não pode banalizar a figura de um ex-presidente.
FOLHA - O sr. apoiou Sarney, reatou com Collor, é amigo de Renan Calheiros, de Jader Barbalho e recebeu Delúbio Soares recentemente na Granja do Torto. Todos são acusados de práticas atrasadas na política e até de corrupção. Ao se aproximar dessas figuras, não transmite ideia de tolerância com desvios éticos?
LULA - O dia em que você for acusado, justa ou injustamente, enquanto não for julgado, terá de ser tratado como cidadão normal. Não tenho relações de amizade, mas institucionais.
FOLHA - O cidadão o vê abraçado com essas figuras...
LULA - O cidadão tem de saber que eles foram eleitos democraticamente. E o eleitor dessas pessoas é tão bom quanto elas.
FOLHA - O sr. trabalhou pela reabilitação de Antonio Palocci. O caso do caseiro é superável eleitoralmente?
LULA - Desejo que todos os que foram acusados, e acho que tem muita gente acusada injustamente, que todos sejam julgados. Palocci teve um veredicto. Não tem mais nenhuma pendência com a Justiça. Pode ser o que quiser ser.
FOLHA - Ele pode ser candidato a governador de São Paulo?
LULA - Ele tem inteligência para saber se o momento é de uma candidatura ou não.
FOLHA - Seu aliado Ciro Gomes diz que há "frouxidão moral" na hegemonia da aliança entre PT e PMDB, da qual o sr. é o principal avalista. Como o sr. responde?
LULA - A aliança com o PMDB e os demais partidos permitiu governança muito tranquila. Se confirmada a aliança, será feito documento público para saber os compromissos assumidos.
FOLHA - E a frouxidão moral?
LULA - Conceito do Ciro.
FOLHA - Não quer responder.
LULA - Opinião do Ciro.
FOLHA - Não o incomoda?
LULA - Não. Ciro esteve no meu governo. A única coisa que não tem aqui é frouxidão moral.
FOLHA - Ciro disse que o sr. e FHC foram tolerantes com o patrimonialismo para fazer aliança no Congresso. Ou seja, aceitaram a prática de usar bens públicos como privados.
LULA - Qualquer um que ganhar as eleições, pode ser o maior xiita deste país ou o maior direitista, não conseguirá montar o governo fora da realidade política. Entre o que se quer e o que se pode fazer tem uma diferença do tamanho do oceano Atlântico. Se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão.
FOLHA - É o que explica o sr. ter reatado com Collor, apesar do jogo baixo na campanha de 1989?
LULA - Minha relação com o Collor é a de um presidente com um senador da base.
FOLHA - Dá aperto no peito?
LULA - Não tenho razão para carregar mágoa ou ressentimento. Quando o cidadão tem mágoa, só ele sofre. Quando se chega à Presidência, a responsabilidade nas suas costas é de tal envergadura que você não tem o direito de ser pequeno.
Leia a íntegra da entrevista www.folha.com.br/0929415 Marcadores: 2010, Aécio Neves, Ciro Gomes, DEM, Dilma, Lula, Minas Gerais, PMDB, PSDB, PT, Sao Paulo, Serra
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